Comunicamos aqui um fato que merece
ser divulgado e discutido, devido à sua importância para a
cultura e a liberdade de expressão do país. No início
do mês de maio, a Comissão Organizadora do 26º Festival
de Cinema de Gramado, em uma decisão absolutamente antidemocrática
e sem precedentes na história do evento, decidiu restringir a Mostra
Competitiva da categoria Super-8 mm apenas aos estados do Rio Grande do
Sul e Santa Catarina. Assim, a partir de 1998 os realizadores de Super-8
do resto do país ficam impedidos de exibir seus filmes no festival,
o que já ocorria há pelo menos vinte anos.
A justificativa dos organizadores
A Comissão Organizadora do
festival tenta explicar a adoção da restrição
como “uma conseqüência das discussões envolvendo os realizadores
paulistas” na edição anterior do evento, no ano passado.
Essas “discussões” foram na verdade questionamentos feitos pessoalmente
e através da mídia ao coordenador geral do festival, Sr.
Esdras Rubim. Os realizadores paulistas coerentemente questionaram a atenção
mínima que foi destinada à bitola Super-8 mm. Por atenção
mínima leia-se, entre outros exemplos: praticamente nenhuma divulgação
da mostra de Super-8 no guia oficial, documentos, press-releases e site
do festival e ausência de informações sobre datas e
locais de inscrição para filmes da bitola.
Perguntas sem resposta
A medida restritiva adotada no Festival de Gramado expõe contradições e também produz algumas questões pertinentes:
- Por que os problemas de organização no festival de 1997 não deveriam ser questionados? A intenção das críticas – que foram feitas de maneira séria e objetiva – era promover melhorias no festival. Entretanto, a impressão que fica é que as sugestões apresentadas pelos paulistas não só foram mal compreendidas como também motivaram uma aparente “punição”, direcionada a São Paulo e que se estendeu por quase todo o país.
- Quais foram os padrões estabelecidos para se determinar que apenas os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina podem enviar filmes para a mostra? O objetivo dessa pergunta não é pôr em dúvida a conhecida qualidade dos filmes gaúchos (de Santa Catarina, infelizmente, ainda não conhecemos nenhum representante), mas sim pedir que venham a público os critérios de julgamento dos organizadores.
- Por que um festival que pretende (ou que divulga) ser “internacional” toma uma medida que nada tem a ver com esse espírito, ao contrário, se mostra retrógrada e provinciana?
Conseqüências e conclusões
A cultura nacional de uma maneira geral está sendo desrespeitada pela proibição imposta, mas o estado de São Paulo talvez seja o maior prejudicado devido ao grande número de filmes paulistas de Super-8 realizados todo ano. Para comprovar esse fato, basta nos recordarmos que, dos 17 filmes participantes da última edição do Festival de Gramado, 14 eram de São Paulo.
Esse fato indica que a restrição deve causar uma queda brusca na diversidade dos filmes apresentados em Gramado e também no prestígio da Mostra de Super-8, que está ameaçada a se tornar um evento regional. Além disso, a proibição limitará o que para nós é um dos benefícios mais importantes do festival – o intercâmbio com realizadores de todo o país, principalmente da região sul.
Concluindo essa análise, os realizadores do Núcleo de Cinema Tela em Transe, de São Paulo, e Núcleo Set de Cinema, de Campinas, declaram total repúdio a esta e a qualquer outra restrição à liberdade de expressão. Frisando essa postura, lembramos que as mostras e festivais de Super-8 promovidos pelos núcleos sempre estarão abertos a todos os realizadores que queiram participar.
Agradecemos a sua atenção
e pedimos seu posicionamento e colaboração em relação
ao assunto.
Cordialmente,
NÚCLEO DE CINEMA TELA EM
TRANSE E
NÚCLEO SET DE CINEMA
Seguem anexos a esta carta:
- Uma cópia do documento com as
resoluções da Comissão Organizadora do Festival de
Gramado.
-Um apêndice que ressalta o crescimento
e a importância da realização de filmes em bitola Super-8
mm.
Caso você precise de mais informações, deixamos aqui nossos dados para contatos:
- telefones: (011) 241-7588
- Arthur / (011) 231-4491 - Custódio
(019) 241-9396 - Lucas / (019) 251-4082 - Fernando
- fax: (011) 818-0479
- aos cuidados de Ferrari
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A IMPORTÂNCIA DO SUPER-8
Também conhecido como “bitola nanica”, o Super-8 experimenta nos anos 90 um verdadeiro ressurgimento, uma vez que o período em que mais tinha sido utilizado foi na década de 70. Não pretendemos traçar aqui nenhum tipo de histórico da categoria, mas apenas ressaltar alguns pontos importantes que complementam a análise sobre o que está ocorrendo no Festival de Gramado:
- Um número crescente de filmes, comerciais, videoclipes e documentários tem sido produzido nessa bitola, desmentindo o mito de que o Super-8 não tem nenhuma aplicação comercial. Os realizadores geralmente são atraídos pela textura granulada e diferenciada da película.
- Os festivais de cinema representam um espaço importante para a troca de idéias e experiências entre os realizadores de todos os formatos. Vários festivais internacionais tem mostras de Super-8, dos quais podemos citar o de Chicago (Estados Unidos), o de Clermont-Ferrant (França) e o Festival Internacional do Chile, entre outros.
- O Super-8 exerce um papel didático fundamental na formação de novos profissionais de cinema, assim como é uma das categorias que mais abrem espaço para novas propostas e experiências na realização dos filmes. Vários cineastas brasileiros e estrangeiros começaram e/ou utilizaram o formato Super-8 em seus filmes (exemplos: Jairo Ferreira, Beto Brant, Cacá Diegues, Jean-Luc Godard, Steven Spielberg, Wim Wenders)
- O interesse dos espectadores em relação aos filmes feitos na bitola tem aumentado de forma surpreendente, fato comprovado na Mostra de Super-8 do Festival de Gramado de 1997, que bateu recorde de público.