O Núcleo de Cinema
Tela em Transe esteve associado ao Super-8 nesses seus quase dois anos
de existência, e assim desejamos que continue, porém é
um núcleo de cinema, e não só de Super-8. Com isso
objetiva-se relatar aqui, de uma forma mais ampla, os princípios
e perspectivas culturais do Núcleo Tela Em Transe, assim como o
porquê desse casamento com o Super 8.
As atividades que o
Tela em Transe desenvolve visam aproximar seus membros desse universo chamado
cinema. Daí vem : discussão de temas não só
cinematográficos mas também culturais; assistir aos filmes
importantes na cinematografia brasileira e mundial; informar sobre os acontecimentos
cinematográficos; promover uma aproximação com realizadores
de todo o Brasil; divulgar trabalhos através de mostras; e desenvolver
roteiristas no Banco de Roteiros; entre outros.
A necessidade de realizar
atividades desse gênero surge porque se percebe que há um
grande número de pessoas que possuem uma relação muito
próxima com o cinema, seja através da cinefilia ou da realização.
Porém é comum essas pessoas não terem nenhum contato
direto para desenvolver essa sua relação, daí chegando
à conclusão que cinema é para quem tem dinheiro ou
só para intelectuais; enfim, caracterizam o cinema como algo distante,
e pior, que só existe fora dos limites do Brasil, principalmente
em Hollywood.
Cinema é uma
arte, e por isso deve estar ligado à cultura de um povo. O Brasil,
sob o jugo neoliberal americano, tem afastado sua população
de um conhecimento cultural, e ainda explora uma contra-cultura baseada
em rebolados, lingerie e chicote. A cultura deve estar enraizada na população,
isso permite um auto-conhecimento e um passo para questionar e buscar uma
saída para o caos causado por essa nova ordem mundial.
Portanto, aqueles que
desejam se expressar culturalmente devem encontrar portas abertas, um espaço
para que um desenvolvimento coletivo traga resultados significativos. E
são essas portas que se deseja abrir no Núcleo Tela em Transe,
tendo como expressão o cinema, que, da diversão ao mais profundo
auto-conhecimento, é capaz de mover interiores.
Outra atividade desenvolvida pelo Tela
em Transe tem sido o constante apoio às produções
de curtas-metragens realizadas em São Paulo. O principal papel do
núcleo é de aglutinador, as equipes surgem a partir do convívio
dentro da entidade. A maioria dessas produções foram realizadas
em Super 8.
Fazer cinema no Brasil
é um processo que por si só é repleto de dificuldades,
e para tornar mais dolorosa a vida dos realizadores, encontra-se muita
resistência quando se procura alguma forma de apoio. Aliado a isso
as pessoas em volta do Núcleo Tela Em Transe, em que a maioria não
tem formação superior nem em cinema nem em comunicação,
perguntavam-se como começar a fazer cinema.
Surge então
o Super-8 como alternativa de se iniciar na realização cinematográfica.
O custo baixo de uma produção em Super-8 permite entrar num
processo de aprendizagem muito rico. Primeiro, porque já está
se trabalhando com película, e a magia do celulóide é
incomparável. Segundo, porque foi adotada uma organicidade nos padrões
de qualquer produção cinematográfica, desde a formação
da equipe até a utilização de equipamentos.
Claro que todo esse
processo exige dos realizadores um contínuo aprendizado, que é
obtido através de cursos e leituras de obras relacionadas ao cinema,
assim como assistir a filmes periodicamente. Ser auto-didata tem sido fundamental
para aqueles que ao redor do núcleo estão na ativa realizando
filmes.
Gostaria de ressaltar
que quando me refiro a realizadores, entender não apenas o Diretor
dos filmes, o aspecto autoral no Núcleo possui um conceito muito
mais coletivo do que se possa imaginar. Nos filme há uma equipe
de fotografia, inclusive os fotógrafos são bastante competentes
e premiados. Há uma Direção de Arte, em que os responsáveis
procuram dar um acabamento de destaque nas produções. Continuísta,
toda equipe conta com um, seu papel é mais do que necessário.
Assistente de Direção, função importante para
não sobrecarregar o diretor. A equipe de Produção
procura trabalhar de uma forma ordenada e planificada para prover o filme
de todos os recursos necessários, e o mais importante: cumprimento
de prazos. Ainda tem o processo de finalização, onde montadores
e sonorizadores praticamente dão à luz o filme, deixando-o
pronto para a tela grande.
Todos esses são
os realizadores que menciono, e isso aplica-se no Super 8 e em qualquer
bitola que vier a ser produzida ao redor do Tela em Transe. Claro que,
talvez em algumas produções, essa equipe deva ser complementada
com outros profissionais, porém a filosofia utilizada no 8 mm estará
sempre na ordem do dia.
E aqui gostaria de
fazer uma pergunta àqueles que costumam dizer que Super 8 não
é cinema. Se Michelângelo não tivesse feito sua obra
na Capela Sistina e sim em uma igreja de uma desconhecida cidade no interior
do Brasil, será que essa obra perderia seu valor artístico
?
Walter Salles uma vez
comentou que o conteúdo é muito mais primordial do que a
forma, deve-se trabalhar primeiro no conteúdo para depois aplicá-lo
na forma que melhor lhe convier. Ele ainda ressalta que esse conteúdo
deve ser trabalhado com o coração, deve mover o artista por
dentro, tornar-se visceral. E, sem dúvida, foi assim que Michelângelo
trabalhou na Capela Sistina; seu amor pelo que fazia o impulsionou muito
mais do que as paredes edificadas pelo Vaticano.
São com esses
conceitos que os membros do Tela em Transe vêm se dedicando ao cinema,
com obras em Super 8 e num caminho já traçado para as outras
bitolas. Partindo desse trabalho que se procura buscar e trazer para o
debate os problemas e as dificuldades de se fazer cinema num país
tão rico culturalmente como o Brasil. Os resultados obtidos talvez
ainda estejam numa pequena escala, mas já são consideravelmente
expressivos. Num conjunto com realizadores de Campinas, Jundiaí,
Londrina , Porto Alegre e São Paulo, obtiveram-se espaços
para exibições de Super-8 e hoje contamos com quatro festivais
e duas mostras da bitola no Brasil.
Também esses realizadores estão
produzindo, cada vez em maior número, o que nos chega a uma média
de 25 filmes por festival. A conclusão que se tira disso é
uma geração de pessoas que estão fazendo cinema, enfrentando
um sem número de dificuldades e colocando na cultura brasileira
sua forma de expressão, contribuição há muito
esquecida pelos líderes desse país.